Universidade Federal do Estado do Piauí tem sua primeira professora travesti

Vai ter travesti na Ufpi sim!!!, comemorou sob aplausos, Letícia Carolina Pereira, na sala do reitor José de Arimateia Dantas. A educadora é a primeira travesti a tomar posse como professora efetiva na Universidade Federal do Piauí (Ufpi). Ela vai lecionar no campus de Pedagogia em Floriano, distante 247 km de Teresina.

A universidade, que ainda é pouco homogênea e acessível, carece de representatividade trans. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), apenas 0,02% frequentam esse espaço público. Entre os desafios, estão marginalização e o não reconhecimento da identidade de gênero, seja na família, na escola ou no trabalho.

Aos 13 anos, a maioria é expulsa de casa. Como efeito, 56% não concluiu o ensino fundamental e 72% desistiu em algum período do ensino médio. Por isso, adentrar o ensino superior é uma exceção. E quem chega lá, precisa quebrar inúmeros paradigmas até ocupar tais espaços, que deveriam ser para todos.

“Isso é empoderador na medida que outras travestis tenham essa representatividade e percebem que há uma travesti servidora pública federal, professora de uma universidade. E que da mesma forma que eu consegui, quero que outras consigam. Claro que toda trajetória de travesti é diferente, cada uma tem suas dificuldades, que acabam não conseguindo chegar onde eu cheguei. Por isso, é importante lutar contra transfobia para que a gente possa possibilitar esse sonho para mais travestis. Espero que daqui um tempo a gente perca as contas e não saiba quem mais foi a primeira ou a segunda, porque teremos uma universidade repleta de travestis”, afirmou a pedagoga.

De origem paraibana 

Graduada em 2007 na Ufpi de Parnaíba, Letícia veio para capital obter o título de mestre em educação. Já de volta ao litoral, ela lecionou como professora substituta na Uespi. A experiência durou três anos até ser convocada para assumir um posto também substituto na instituição onde se formou. Lá, ela trabalhou por um ano.

No âmbito pessoal, Letícia assumiu a travestilidade há dois anos, quando lecionava na Uespi. A experiência de vida também a incentiva a pesquisar sobre o tema. Hoje, a piauiense é doutoranda em educação na Ufpi e estuda perspectivas das mulheres trans, mulheres negras e mulheres gordas.

“A educação é um ato político. Como educadora, eu tenho a responsabilidade social de desenvolver projetos de transformação social. Como professora e pesquisadora, eu pretendo desenvolver, ao lado dos alunos de pedagogia do curso de Floriano, e a partir da minha pequisa de doutorado, projetos que possibilitem a maior inserção de travestis nos diversos espaços. Desde escola à universidade, onde as travestis não estão presentes e deveriam estar. Os espaços públicos devem ser ocupados por todos e todas”, afirmou Letícia. 

Em 2018, a Ufpi abriu vagas para o cargo de efetivo e Letícia se inscreveu. Ela passou nas provas e aguardou ser convocada. A posse aconteceu na segunda-feira (25/02) e a educadora entra em sala de aula ainda esta semana.

Quem também comemorou a posse foi Leona Osteres, coordenadora do GPTrans. Ao OitoMeia, ela disse que o resultado de Letícia é um dia simbólico de respeito aos direitos humanos.

“É um dia de vitória, de conquista e superação. É um momento simbólico de respeito e libertação aos direitos humanos. É marco para o movimento LGBTQ+ do Piauí. Nós também sofremos discriminação social. A Letícia Carolina veio para somar, ela veio para dar exemplo para outras meninas que estão chegando. Como educadora, Letícia irá preparar seus alunos para lidar com a diferença. Principalmente, no que diz respeito ao trabalho e aos direitos LGBT. Ela é um exemplo de mulher travesti. Ela nunca desistiu dos sonhos e é um orgulho para o GPTrans”, celebrou a coordenadora.

Do site oitomeia

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